Promessa de Chuva

A chuva chegou sem avisar, como sempre chegam as coisas que ficam. O cheiro de terra molhada é a memória que ninguém escolhe ter.

A chuva chegou sem avisar,
como sempre chegam as coisas que ficam.
O cheiro de terra molhada
é a memória que ninguém escolhe ter
— ela simplesmente está lá,
guardada no fundo dos pulmões
como um segredo que o corpo não esquece.

Minha avó dizia que a chuva tem nome.
Que cada gota que cai no sertão
foi prometida antes do nascimento de quem recebe.
Que a terra não é ingrata:
ela só espera.

Eu aprendi a esperar também.
Aprendi que o silêncio de agosto
não é ausência —
é a respiração mais funda
antes do mais longo dos cantos.

E quando a chuva veio,
verifiquei que minhas mãos
ainda sabiam rezar do jeito certo:
abertas para cima,
como quem não tem nada a perder
e por isso recebe tudo.


Sobre o poema

Este poema faz parte da coletânea A Voz do Sertão (2023). Escrito numa tarde de outubro em Quixadá, após a primeira chuva forte do ano.

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