O Homem da Rodoviária

O homem chegou à rodoviária com uma mala pequena e a certeza de que tinha esquecido alguma coisa — não era a escova de dentes.

O homem chegou à rodoviária com uma mala pequena e a certeza de que tinha esquecido alguma coisa. Não era a escova de dentes — essa ele verificara três vezes. Não era o carregador do celular, que aparecera debaixo do travesseiro no último segundo. Era outra coisa. Um peso leve que sentia falta no peito.

Sentou no plástico azul da poltrona número 23 e olhou pela janela. O sol batia na fachada do mercadinho de sempre, naquele amarelo que a cidade insistia em manter vivo apesar de tudo. Uma criança atravessou correndo e quase derrubou o vendedor de paçoca. O vendedor gritou algo que o vidro abafou.

O ônibus partiu às 14h17, com três minutos de atraso. O homem não percebeu quando a cidade passou a ser outra coisa — primeiro virou subúrbio, depois viraram postos de gasolina, depois viraram campos. Foi quando entendeu o que havia esquecido.

Havia esquecido de dizer que ia voltar.


Conto publicado originalmente na Revista Sagarana, 2022. Incluído em versão revisada em Miragens de Outubro.

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